terça-feira, 6 de outubro de 2015

Está na altura certa para aprender a não agredir

Apesar da péssima tradução, a leitura do artigo pode ser útil.

Desenvolvimento da agressão física da primeira infância à idade adulta

Richard E. Tremblay, PhD, FRSC
International Laboratory for Child and Adolescent Mental Health Development, INSERM U669, França, University College Dublin, Irlanda, University of Montreal, Canadá
Fevereiro 2008, Ed. rev. (Inglês). Tradução: abril 2010
Introdução
A visão tradicional
A violência física exibida por adolescentes e adultos jovens é uma preocupação importante em todas as sociedades modernas. Sem dúvida, o risco de prisão e condenação por comportamento criminoso é maior ao final da adolescência e no início da vida adulta do que em qualquer outro momento da vida. Nos últimos 40 anos, centenas de estudos tentaram esclarecer o que leva crianças brincalhonas a se tornar jovens delinquentes violentos. Já foi demonstrado que supervisão parental insuficiente, colapso familiar, influência negativa de colegas e pobreza estão associados à delinquência juvenil violenta.1,2  Os homens respondem pela maioria das prisões por crimes violentos. A principal explicação para o comportamento violento vem sendo, há muito tempo, a seguinte: “Comportamentos agressivos e violentos são respostas aprendidas à frustração que podem também ser assimiladas como instrumentos para atingir metas, aprendizado que ocorre pela observação de modelos que exibem tais comportamentos. Esses modelos podem ser observados na família, entre colegas, na vizinhança, nos meios de comunicação de massa ou na pornografia violenta.”3 
Problemas
Problemas com a visão tradicional
Se a agressão física é aprendida pela observação de modelos na família, na vizinhança e entre os colegas, as seguintes questões podem ser formuladas:
  1. Quando a aprendizagem começa? 
  2. A frequência da agressão física aumenta com a exposição a modelos agressivos? 
  3. Quando e como podemos prevenir o desenvolvimento da agressão física?
Resultados de pesquisas recentes
a)Pesquisa durante a educação primária
Até pouco tempo atrás, a maioria das pesquisas sobre agressão focalizou adolescentes e adultos. Uma minoria dos estudos longitudinais utilizando amplas amostragens de crianças em idade de frequentar o ensino primário forneceu informações importantes sobre o desenvolvimento da agressão física.4,5 Uma constatação significativa e inesperada desses estudos longitudinais foi que a grande maioria das crianças reduziu a frequência de agressões físicas a partir do ingresso na escola e até o final do ensino médio. Esse fenômeno é observado igualmente em meninas e meninos, embora as meninas tenham demonstrado sistematicamente menor frequência de agressões físicas do que os meninos. Esse fenômeno foi observado nas décadas de 1980 e 1990 no Canadá, na Nova Zelândia e nos Estados Unidos, onde as taxas de homicídios estavam aumentando. 6,7,8
Sob a perspectiva da agressividade como aprendizagem social, esse declínio da frequência de agressões físicas acompanhando o aumento da idade era inesperado, uma vez que as crianças são cada vez mais expostas a modelos de agressão ao longo do crescimento. Estudos longitudinais também demonstraram ser extremamente improvável que um adolescente que no passado não praticou agressões físicas em nível excepcional venha subitamente a manifestar problemas significativos de agressividade física.7,8,9,10,11
Obviamente, essas constatações levaram a outra questão: se a maioria das crianças está no seu ápice de frequência de agressões físicas por ocasião do ingresso na escola, em que momento  aprendem a tornar-se fisicamente agressivas? Até hoje poucos estudos focalizaram a agressão física antes do ingresso na escola, provavelmente por três bons motivos: 1) As consequências de agressões físicas cometidas por um adolescente de 18 anos normalmente são mais dramáticas do que aquelas cometidas por uma criança de 3 anos; 2) A teoria do aprendizado social da agressividade levou-nos a acreditar que as crianças aprendem a ser agressivas durante os anos escolares porque são mais expostas a modelos de agressão do que crianças na educação infantil; 3) É mais fácil para os pesquisadores observar e entrevistar crianças em idade escolar.
b)Pesquisas durante a primeira infância
Na década passada, alguns poucos estudos longitudinais que analisaram a agressividade desde o nascimento reverteram nossa compreensão sobre o desenvolvimento da agressão física. Esses estudos mostram que, se as crianças realmente aprendem a praticar agressões físicas pela observação de modelos, a maior parte desse aprendizado se dá durante os primeiros 18 a 24 meses de vida. De fato, a maioria das mães relata que, nessa faixa etária, seus filhos usavam alguma forma de agressão física.12,13  Há, entretanto, diferenças substanciais na frequência da agressão física tanto entre bebês como em meio a crianças pequenas.14,15,16 Esses estudos mostram que determinada maioria de crianças utiliza ocasionalmente a agressão física; uma minoria utiliza a agressão física com muito menor frequência do que a maioria; e outra minoria utiliza agressão física com muito maior frequência do que a maioria. Na educação infantil, muitas crianças são encaminhadas a clínicas por problemas de comportamento,  principalmente por comportamentos de agressão física.17 
Dados disponíveis sobre o desenvolvimento da agressividade física nos anos pré-escolares mostraram que a frequência de uso da agressão física aumenta nos primeiros 30 a 40 meses após o nascimento, e a partir daí declina de maneira regular.14,16  O número de meninas que chegam aos níveis de frequência mais elevados é menor do que o de meninos, e as meninas tendem a reduzir mais cedo a frequência de agressões.18
Além disso, estudos longitudinais até a adolescência mostram que a educação infantil é um período sensível para aprender a controlar a agressividade física. De fato, a minoria de crianças na escola primária  que continuam exibindo altos níveis de agressividade física (5% a 10%) continua correndo grande risco de envolvimento em comportamentos fisicamente violentos durante a adolescência.7,8 
É interessante notar que, embora tenha sido verificado que a frequência de agressões físicas diminui a partir dos 3 ou 4 anos de idade, a frequência da agressão indireta (fazer comentários inconvenientes sobre outras pessoas pelas costas) aumenta consideravelmente dos 4 aos 7 anos de idade, e que as meninas tendem a usar essa forma de agressão mais frequentemente do que os meninos.19 
Os principais fatores de risco para que as mulheres tenham filhos com problemas graves de agressividade física são baixo nível educacional, histórico de problemas comportamentais, gravidez e parto precoces, fumo durante a gravidez e baixa renda.14-16,20,21 Um estudo com uma ampla amostra de gêmeos também indica efeitos genéticos sobre diferenças individuais na frequência de agressividade física aos 19 meses de idade.22
Conclusões
Contrariando a crença tradicional, as crianças não precisam observar modelos de agressão física para se iniciar na utilização desse tipo de comportamento. Em 1972, Donald Hebb – um dos pais da psicologia moderna – observou que crianças não precisam aprender a ter explosões de raiva.23 Em seu livro de 1979 sobre desenvolvimento social, Robert Cairns lembrou aos estudantes de desenvolvimento humano que os animais mais agressivos são aqueles que foram isolados desde o nascimento.24 De fato, bebês parecem usar a agressão física espontaneamente para alcançar seus objetivos quando estão com raiva. Seguindo o trabalho pioneiro de Charles Darwin, Michael Lewis e seus colegas mostraram que reações de raiva podem ser observadas já aos 2 meses de idade.25,26 Aparentemente, também é espontânea a maneira como as crianças recorrem a brincadeiras de luta.27Portanto, ao invés de aprender em seu ambiente a utilizar a agressão física, as crianças aprendem a não usar esse comportamento por meio de várias formas de interação com seu ambiente. 
A pesquisa sobre o desenvolvimento da agressividade durante o período pré-escolar ainda não esclareceu adequadamente os mecanismos que explicariam:
  1. por que alguns bebês são mais agressivos fisicamente do que outros;
  2. por que alguns se envolvem muito pouco em agressões físicas;
  3. por que bebês do sexo feminino tendem a envolver-se em agressões físicas menos frequentemente do que os bebês do sexo masculino;
  4. por que a maioria das crianças aprende a regular a agressão física antes de entrar na escola;
  5. por que algumas não o fazem;
  6. por que as crianças começam a envolver-se em agressões indiretas;
  7. por que as meninas se envolvem em agressões indiretas mais frequentemente do que os meninos;
  8. em que medida o envolvimento em agressões indiretas reduz agressões físicas;
  9. quais intervenções são mais eficazes para ajudar crianças em idade pré-escolar que têm dificuldade para aprender a controlar suas tendências a envolver-se em agressões físicas.   
Implicações para políticas e serviços
As pesquisas resumidas acima têm duas implicações importantes para a prevenção da agressividade física. Em primeiro lugar, há o fato de que a maioria das crianças aprende alternativas para a agressão física durante os anos pré-escolares. Portanto, a primeira infância é provavelmente o momento mais oportuno para ajudar as crianças que correm risco de se tornar agressores físicos crônicos. O auxílio intensivo a famílias de alto risco desde a gravidez deverá ter impacto no longo prazo.28,29,30 Em segundo lugar, uma vez que a maioria dos seres humanos utilizou agressão física em sua primeira infância, muito provavelmente corre o risco de usá-la novamente em situações que parecem não oferecer alternativas satisfatórias. Isso poderia explicar por que tantos crimes violentos são cometidos por indivíduos que não têm uma história de agressão física crônica, e por que tantos conflitos entre famílias, grupos étnicos, grupos religiosos, classes socioeconômicas e nações levam à agressão física.
Políticas que promovam educação de qualidade para a primeira infância devem reduzir os casos de violência crônica e o nível geral de agressividade física na população. Mas são igualmente necessárias políticas que mantenham ambientes pacíficos na sociedade como um todo, para evitar que reações agressivas primitivas irrompam através da aparente civilidade que adquirimos com a idade.
Referências
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